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IRRIGAÇÃO NA DOSE CERTA.

IRRIGAÇÃO NA DOSE CERTA.

A irrigação de pastagens é uma prática que vem se fortalecendo em propriedades leiteiras no Brasil e, se bem planejada e instalada, pode trazer ganhos significativos aos produtores. Trata-se, assim, de uma importante aliada da fazenda contra a falta de chuvas, contribuindo para que as expectativas de produção e rentabilidade sejam preservadas. Importante destacar, no entanto, que um sistema de irrigação, por si só, não faz milagres e não reverte condições adversas, como pastos degradados, por exemplo, demandando que o pecuarista, antes de adotá-lo, tome algumas medidas indispensáveis.

O uso da irrigação na pecuária leiteira traz consistentes benefícios ao produtor. Esta técnica contribui para o aumento da produtividade de forragem de alta qualidade nutricional, o que reduz a necessidade de alimentação suplementar (concentrados) e, consequentemente, dos custos de produção. “Comprovadamente, a irrigação de pastagem pode reduzir os efeitos de veranicos e possibilitar o aumento do tempo de disponibilidade da forragem”, esclarece o consultor João Rosseto Júnior, da consultoria Agrodinâmica. “Além disso, também permite a utilização de sobressemeadura de pastagem tropical com aveia e azevém, melhorando a quantidade de volumoso fornecido no inverno. O resultado desta dinâmica se traduz em ganho financeiro.”

O cálculo compartilhado pelo professor Fernando Campos Mendonça, do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Esalq-USP, ilustra este ganho de produtividade. “Considerando o consumo de matéria seca por animal de 11 quilos/dia e uma eficiência de colheita de forragem de 70% (a cada 100 kg produzidos, o animal come 70), pode-se estimar a produtividade de forragens entre 25 toneladas/hectare e 30 t/ha de matéria seca em pastagens intensificadas de sequeiro.

Já em pastagens intensificadas e irrigadas, essa produção pode saltar para até 50 t/ha”, revela. “Nas regiões com clima quente o ano inteiro, essa produtividade pode ser bem maior, podendo chegar a 80 t/ha de matéria seca.”

A produção de forragens para alimentar o rebanho reflete, diretamente, na taxa de lotação das fazendas, permitindo alcançar um índice superior a 10 unidades animais por hectare (UA/ha). De acordo com o engenheiro agrônomo Fábio Antônio Cagnin, da IrrigaRural _ empresa de sistemas de irrigação situada em Londrina (PR) _, isso acontece em 100% das fazendas que adotam a irrigação. “Logicamente que os resultados positivos dependem do estágio em que a forragem se encontra, em termos de fertilidade, e em qual região do Brasil está localizada a propriedade”, observa o especialista.

“Quanto mais próximo ao Equador e quanto maior a taxa de luminosidade, maior será a resposta da pastagem à irrigação”, diz. “Falando apenas de sistemas de produção intensiva, há casos nas Regiões Sudeste e Sul em que a lotação aumentou cerca de 70%, passando de 7 UA/ha para 12 UA/ha”, complementa Mendonça. “No Nordeste, já foram relatados casos de lotações de 15 a 20 UA/ha.” Os sistemas de irrigação mais utilizados na pecuária leiteira são por aspersão móvel, aspersão fixa e pivô central (veja quadro na pág. 19). Para que a adoção de um sistema de irrigação seja eficiente e traga os resultados esperados, é preciso que importantes questões estejam bem resolvidas na fazenda.

Nesta lista estão inclusas a estruturação do rebanho, a fertilidade do solo e procedimentos sanitários, como o descarte de animais com brucelose, tuberculose e outras doenças. “A seleção do rebanho para o aumento do período e da persistência de lactação e uma mão de obra bem treinada também são requisitos importantes que garantem e potencializam o efeito da irrigação”, alerta Mendonça.

Com essas boas práticas em dia, o professor da Esalq destaca que o primeiro passo para adotar um bom sistema de irrigação é estruturar um planejamento. Ou seja, nada deve ser feito de maneira aleatória, sem estudo e sem orientação técnica especializada e idônea. “Nesta fase, é necessário fazer um levantamento de todos os detalhes do terreno (levantamento planialtimétrico), tirar amostras de solo para obter a curva de armazenamento de água, mapear a capacidade energética da fazenda e analisar o clima para determinar a demanda de água que o sistema deverá suprir. Esses dados são fundamentais para definir o tipo e as dimensões do projeto.”

Rosseto complementa que, além do levantamento dessas informações, também é imprescindível conhecer a velocidade de infiltração de água no solo analisado e o tipo de planta que será irrigada. “Todos esses itens devem ser contemplados para que se possa projetar um sistema eficiente.” Para o consultor, projetos de irrigação estão à disposição de fazendas de todos os portes, mas é mais indicado para o produtor que já esteja dominando um sistema de pastejo intensivo. “Afinal, se uma propriedade possui baixa lotação por hectare, pode ficar difícil tornar viável economicamente esta técnica”, observa.

Quando o assunto é irrigação, outro quesito a ser esclarecido é se deve haver uma área mínima para a sua adoção. Para Mendonça, não há um limite específico pré-estabelecido, pois tudo depende das condições que a fazenda oferece para isso. “A experiência nos mostra que muitos produtores consideram que a área mínima para montar a irrigação é a de um módulo de pastejo rotacionado, que pode ter 0,5 ha em uma propriedade e 50 ha em outra.

Como não há duas propriedades rurais iguais, o planejamento deve ser feito caso a caso, juntamente com o técnico que assessora o produtor.” Cagnin, da IrrigaRural, também reforça a inexistência de uma área mínima, mas observa que um importante fator que auxilia nesta definição é a estrutura energética da fazenda. “É muito comum encontrar propriedades com energia monofásica (fornecida por uma única fonte) e isso sim limita a área máxima”, explica.

Ambos os especialistas também concordam que mais vale adotar um sistema de irrigação de forma gradativa do que de uma só vez em toda a fazenda. “Quando se erra em uma área pequena, paga-se pouco pelo erro. Por isso, recomenda-se começar em uma área pequena e expandir assim que se ganhar a experiência necessária”, defende o professor da Esalq.

A irrigação compreende o uso de recursos hídricos e, portanto, o produtor deve fazer isso de maneira racional e legal para evitar transtornos futuros. “Por isso, sempre é necessário consultar o órgão responsável pela outorga de água na região da propriedade, a fim de garantir que a vazão retirada seja limitada à quantidade permitida por lei”, orienta Mendonça, da Esalq.

“Esse uso deve ser autorizado e legalizado pelos órgãos competentes de cada região, de modo que o produtor evite transtornos”, complementa Rosseto, da Agrodinâmica. Mendonça acrescenta que outro cuidado em relação à água envolve a sua qualidade. Afinal, dependendo da fonte de captação, pode haver alta concentração de alguns elementos químicos, como ferro, sódio, cálcio, magnésio, bicarbonatos e carbonatos, que podem afetar a pastagem ou causar entupimento no sistema de irrigação. Mendonça destaca ainda que o uso do sistema de irrigação demanda um constante monitoramento do consumo de água das plantas ou da umidade do solo para que o fluxo de água seja dimensionado com precisão e o sistema funcione com eficiência.

O consumo de água das plantas pode ser estimado com o uso de algumas técnicas, como o balanço hídrico da cultura, desenvolvido por profissionais de agrometeorologia, que consiste em monitorar as entradas (chuva ou irrigação) e as saídas (evaporação e transpiração) de água para estimar o armazenamento atual de água no solo.

Já o índice de umidade do solo pode ser medido com o uso de instrumentos específicos ou pela retirada de amostras de solo. Há poucos estudos sobre o consumo de água de forrageiras tropicais, mas sabe-se que, quanto maior o índice de área foliar (IAF, uma medida de área de folhas por metro quadrado de solo), maior o consumo de água”, explica Mendonça.

A falta de conhecimento sobre o consumo de água, portanto, pode acarretar em uma irrigação excessiva ou escassa. Em ambos os casos, há perda de potencial produtivo da pastagem. O ideal é aplicar apenas a quantidade necessária de água para evitar perdas de nutrientes móveis no solo, como o nitrogênio, devido à lixiviação (carreamento de nutrientes no solo para uma zona abaixo do sistema radicular).

De uma forma geral, o custo de instalação de sistemas de aspersão convencional fixa gira em torno de R$ 7 mil a R$ 10 mil por hectare. Para pivô central, os custos variam ainda mais e, quanto maior o pivô, menor o custo por hectare. “Também de modo bem generalista, os custos deste tipo de sistema variam de R$ 6 mil a R$ 10 mil por hectare”, esclarece Mendonça. 

Já o custo de manutenção, geralmente, é calculado como uma porcentagem do custo de instalação, girando em torno de 3% a 5% deste valor por ano. “Por exemplo, em um sistema que tenha custo de instalação de R$ 7 mil/ha, o de manutenção será em torno de R$ 210 a R$ 350 por ha/ano”, calcula o especialista. “É interessante lembrar que também há o custo operacional do sistema de irrigação, que envolve a mão de obra encarregada e a energia consumida pelo sistema. Essas despesas variam muito de região para região, pois o valor da hora do trabalhador muda bastante em cada localidade e as concessionárias de energia têm preços bastante variados”, finaliza Mendonça. 

Os sistemas mais usados na pecuária leiteira

• Aspersão móvel
Bastante comuns, os sistemas móveis são constituídos de tubulações leves, de alumínio ou PVC, de fácil conexão e que podem ser transportadas para diferentes áreas. Trata-se de um sistema de irrigação de baixo custo de implantação, porém, com demanda maior de mão de obra para deslocar a posição dos tubos de irrigação ao longo da pastagem.

• Aspersão fixa
Neste modelo, os aspersores são instalados em locais fixos na área irrigada, em um espaçamento determinado para que ocorra uma irrigação uniforme. A água, geralmente, é aplicada por setores, cujo número é determinado pela capacidade de armazenamento de água no solo e pela demanda de água da cultura irrigada. É uma irrigação com custo mais alto de, porém, de fácil operacionalização. Na aspersão fixa, os tubos são todos enterrados e ela pode ser manual, com registros, ou totalmente automatizadas, sem registros.

• Pivô central
É um dos sistemas mais utilizados na irrigação de pastagem, devido às facilidades de instalação e manejo. O pivô central tem uma estrutura metálica em forma de pirâmide no centro da área irrigada, que apoia uma tubulação elevada acima do solo, onde estão os “sprays”, aspersores de baixa pressão que aplicam a água. Essa tubulação elevada (chamada de linha lateral) é apoiada em torres metálicas de formato triangular, com duas rodas e um motor elétrico na base, que movimentam a tubulação pela área irrigada.

Manutenção constante e capacitação

Toda ferramenta sofre desgaste com o passar do tempo e, assim como acontece com os sistemas de ordenha e de refrigeração, o sistema de irrigação também necessita de manutenção preventiva. Neste caso, este procedimento compreende a checagem da uniformidade de aplicação de água, da distribuição de pressão, a remoção de detritos que podem se acumular nos bocais dos aspersores, a checagem de possíveis rupturas de tubos ou de vazamentos, a verificação de pressão e vazão do sistema de irrigação e da bomba e a limpeza de válvulas, filtros, bocais de aspersores e outras peças do sistema sujeitas a entupimento.

Além da rotina de manutenção, Fábio Antônio Cagnin, da IrrigaRural, também alerta para a necessidade de o sistema ser utilizado da maneira como foi projetado e, em hipótese nenhuma, ser alterado, modificado ou redimensionado sem o acompanhamento do responsável técnico pelo projeto. “Quanto à capacitação, esta deve envolver conhecimentos básicos sobre eletricidade e hidráulica, manutenção de filtros, válvulas, conserto de avarias e checagem de operação de bombas e aspersores”, sugere Mendonça. 

Muito além do que só molhar o solo

Muitos são os desafios técnicos que compreendem a adoção de um sistema de irrigação. No entanto, este é um passo que também traz desafios em termos de cultura e conscientização da propriedade. "Nesse sentido, o principal desafio a vencer é a falta de conhecimento sobre irrigação e seu potencial na propriedade", ressalta o pesquisador Mendonça.

"Muitos produtores, por exemplo, pensam em um sistema de irrigação apenas como instrumento para suprir a falta de água. No entanto, deveriam pensar nele como uma possibilidade ampla de modificação do sistema de produção, pois a irrigação aumenta a oferta de forragem, mas também possibilita a fertirrigação e a aplicação de produtos de controle biológico, como a Beauveria bassiana para controle de lagartas e Metarhizium anisopliae, para controle de cigarrinhas, além de permitir um melhor planejamento do pastejo por regularizar a oferta de forragem", avalia o especialista.

Ou seja, a irrigação exerce um papel bem mais amplo e estratégico na rotina da fazenda e cabe ao produtor explorar todas as possibilidades que esta prática oferece. 

 

 

Fonte: portaldoboi

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